"O Tempo Cura Todas as Feridas" É a Maior Mentira que Contamos a Nós Mesmos

Dois irmãos, um pai alcoólatra, destinos opostos. O que realmente cura não é o tempo que passa, mas o que fazemos com ele.


O Tempo Cura Todas as Feridas?

Dizem que o tempo cura todas as feridas. Discordo um pouco disso. Se realmente o tempo curasse todas as feridas, por que encontramos pessoas que, ao final de suas vidas ainda sentem tristeza por algo que não fizeram ou fizeram? Por que há pessoas que levam tanta culpa, que guardam tanto rancor e ódio, mesmo se passado tanto tempo?

Penso que essa fala é uma maneira de confortar a pessoa naquele momento, para não ficar pensando naquilo, ou uma forma de dizer “deixa para lá”. Mas, no final, é justamente o não lembrar, o não recordar, o não sentir, o não colocar para fora, o não dar novo sentido que deixa a pessoa rancorosa, frustrada, triste. Às vezes tentamos fugir dos nossos demônios, mas precisamos enfrentá-los, pois eles não vão embora com o tempo.


Se o tempo cura todas as feridas, por que ainda carregamos dores de décadas atrás?


A História dos Dois Irmãos

Deixe-me contar uma história que ilustra bem isso:

Havia dois irmãos cujo pai era alcoólatra. Com o passar do tempo, esses dois irmãos se tornaram adultos. Na fase adulta, um deles tornou-se um homem bem-sucedido e livre de qualquer vício. O outro, porém, tornou-se dependente do álcool.

Quando perguntado ao irmão bem-sucedido o que o fez ser assim, ele respondeu: “Cresci vendo meu pai dependente do álcool, isso me fez querer não ser assim, querer algo diferente para minha vida.”

Já quando a mesma pergunta foi feita ao outro irmão, ele respondeu: “Ora, cresci vendo meu pai ser alcoólatra… o que mais eu poderia ter sido? Eu aprendi a ser assim.”

O que essa história nos mostra? Não é a situação em si que nos faz ser o que somos, mas sim o que decidimos fazer com ela. E aqui não estou dizendo que o irmão que optou não em seguir o caminho do pai não tenha sofrido - estou apenas fazendo pensar sobre como cada um de nós processa e suporta as experiências da vida.

Dois irmãos. Um pai alcoólatra. Destinos opostos. 
O tempo passou igual para os dois. Então o que realmente cura?



A Menina que Queria Salvar o Mundo

Me lembro de que quando criança, já me fazia perguntas que não eram normais para uma criança: por que surgimos num mundo onde sofremos? Por que as pessoas são ruins umas com as outras? Por que tanta maldade?

Recordo também que ficava imaginando: se eu tivesse um poder, eu queria muito usar esse poder para ajudar todas as pessoas que sofriam e eram injustiçadas. Pobre menina sonhadora, pouco sabia que a vida iria se aproveitar dessa certa inocência.

No mundo em que vivemos, ser inocente acaba sendo um pecado - não porque é algo ruim, mas porque as pessoas se aproveitam disso. A inocência é linda, mas precisamos aprender a nos defender, a colocar limites, a ver as intenções do outro. Vivemos em uma selva. Diferente dos animais silvestres que enfrentam a batalha da floresta, nós enfrentamos a batalha da maldade, do egoísmo, do narcisismo.

Existem pessoas ruins, mas também existem pessoas boas, e muito boas. Infelizmente, a marca das pessoas ruins é muito maior - elas podem fazer estragos enormes, e os que normalmente são vítimas são os vulneráveis: bebês, crianças e animais.


O Encontro com a Psicanálise

Cada vez mais sou convicta de que a psicanálise não entrou na minha vida por acaso. Ou mais longe: talvez ela já estivesse na minha vida enquanto criança, pois minha forma de ver, pensar e refletir já condizia com muito do que a psicanálise ensina.

Acredito que isso foi uma das coisas que me ajudou a passar por tantos desafios e traumas sem me perder totalmente. Claro que em alguns momentos isso ocorreu, mas de certo modo, eu sempre achava o caminho de volta. Porém, foi quando realmente parti para o estudo da psicanálise e para minhas análises, para o enfrentamento com minhas sombras, que o me encontrar, o me entender, o ressignificar tomou forma e me deu coragem e entendimento para saber que caminhos seguir.

A vida é uma jornada, então continuo descobrindo a cada dia, a cada situação nova. E volto: não foi o tempo que curou minhas feridas, e sim o olhar para minhas dores, para minhas sombras e passar por elas.


E os Animais?

Se o tempo cura todas as feridas, isso também vale para os animais?

Animais que sofrem maus-tratos mudam seu comportamento, demonstram ser inseguros, desconfiados e medrosos. 

Em alguns casos, atacam - não por serem agressivos, mas por serem reativos a algum movimento que os lembra dos maus-tratos. É verdade que, com o tempo, o animal pode ter uma nova vida, num lugar onde os humanos tenham paciência e amor. Mas isso é trabalho: mostrar para aquele animal que agora ele está em um lugar seguro. Será que ele realmente esqueceu o que se passou?


A Ambivalência da Memória

A memória é algo ambivalente. Ao mesmo tempo que nos permite guardar lembranças boas, aprender e utilizar esse aprendizado, também carregamos o fardo das memórias ruins e, com elas, revivemos sentimentos que talvez gostaríamos de esquecer.

Mas por que pessoas que viveram situações iguais, muitas vezes, lidam e recordam de maneira diferente?

Tudo isso está ligado a como vivemos e absorvemos as situações, desde o ventre de nossa mãe. Cada um processa as situações de formas diferentes. Portanto, a mesma situação pode ter significados, sentimentos e atravessamentos diferentes para cada pessoa.


Então, o Tempo Cura?

Volto à questão inicial: será que o tempo cura todas as feridas?

Acredito que não. O tempo, por si só, não cura nada. O que pode curar, ou melhor, ressignificar, é o trabalho que fazemos com aquilo que nos machucou. É olhar para a dor, para as sombras, e atravessá-las conscientemente.

Dependendo da intensidade do trauma e de como cada situação atravessou cada um, alguns podem ressignificar rapidamente e outros passar muito tempo ou talvez a vida toda sofrendo por isso. Muitas vezes, talvez nem saibam exatamente o motivo do sofrimento.

Aquela menina continua aqui, talvez vivendo de utopia, querendo que o ser humano possa ser melhor a cada dia consigo, com os outros, com todos os seres que habitam nosso planeta. E é essa menina, junto com a mulher que me tornei através da psicanálise, que afirma: não podemos mudar o passado de um humano ou de um não-humano, mas podemos fazer diferente com aquilo, dar novos significados.

Não é o tempo que cura. É o que fazemos com ele.



E você, o que acha? O tempo curou suas feridas ou você precisou enfrentá-las de frente? 

Deixe um comentário.
Adoro ler as experiências de quem passa por aqui.


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Graziela Dalpian | Psicanalista 

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