Se o envelhecimento e a morte são inevitáveis, por que lutamos tanto contra eles?


Há duas certezas na vida: o nascimento e a morte.

Mesmo assim, a morte continua sendo algo que assusta muito. Talvez mais do que qualquer outra coisa. E eu fico me perguntando por quê. Se sabemos que ela é inevitável, por que lutamos tanto contra ela?

A morte mexe com algo profundo. Ela não fala só do fim da vida, mas de como a gente viveu. Do jeito que nos relacionamos com o tempo, com as perdas, com o amor, com as pessoas. Talvez o medo não seja exatamente da morte, mas da sensação de chegar lá e perceber que passamos a vida inteira vivendo algo que nem era, de fato, a vida que queríamos viver.

Se a morte é certa, por que passamos tantos anos acumulando coisas, status, obrigações, expectativas que nem sempre são nossas? Por que seguimos vivendo no automático, deixando de lado o que realmente importa?

Sempre escuto a mesma coisa: quando as pessoas estão perto de morrer e são perguntadas sobre o que se arrependem, quase nunca falam do que fizeram. Falam do que não viveram. Do tempo que não passaram com quem amavam. Da vida que foi ficando para depois.

E aí vem uma pergunta que não sai da minha cabeça: por que só paramos para pensar nisso quando já não dá mais tempo?

Às vezes fico pensando se isso é algo da nossa época. Será que nossos antepassados sabiam viver melhor? Ou, pelo menos, sabiam lidar melhor com a morte e com o envelhecer?


Hoje temos mais conforto, mais tecnologia, mais facilidades. E isso é bom. Mas parece que usamos tudo isso contra nós mesmos. O que poderia nos ajudar a viver melhor acaba nos prendendo. A tecnologia, que deveria liberar tempo, rouba presença. O conforto, que poderia ampliar a vida, muitas vezes anestesia.

Vivemos numa cultura que nega a morte o tempo todo. Tudo gira em torno da juventude, da produtividade, do desempenho. Envelhecer quase vira um erro. A morte vira um assunto proibido. Só que aquilo que é negado não desaparece. Volta em forma de angústia, de medo de envelhecer, de medo de adoecer, de um mal-estar que a gente nem sempre consegue nomear.

Envelhecer não é só algo do corpo. É também algo da psique. Envelhecer envolve perdas simbólicas: o corpo jovem, os papéis sociais, a sensação de ser produtivo, necessário, insubstituível. Envolve perder certas imagens idealizadas de quem acreditávamos ser.

E junto com essas perdas, existe algo que quase nunca é falado: o luto.

Envelhecer é, de certa forma, viver lutos sucessivos.

À medida que o tempo passa, vamos deixando de fazer algumas coisas. Algumas por maturidade, porque já não fazem mais sentido. Outras simplesmente porque não dá mais. Porque o corpo muda, porque a energia é outra, porque aquilo que era possível quando jovens deixa de ser. E cada uma dessas mudanças carrega uma perda.

O amadurecimento, por si só, já exige luto. Para avançar, é preciso abandonar coisas. Não existe crescimento sem perda. Estamos o tempo todo renunciando a versões de nós mesmos para que outras possam existir. A diferença é que, com o avanço da idade, essas perdas se acumulam e ficam mais visíveis.

Com o passar do tempo, não é só a capacidade física que pode diminuir. Em alguns contextos, perdem-se também a autonomia, a possibilidade de decidir, de ser escutado. O sujeito vai deixando de ser consultado, deixando de ser levado em conta. E isso também é luto. Talvez um dos mais difíceis, porque toca diretamente na dignidade e no sentimento de existir para o outro.

Quando esses lutos não são reconhecidos, quando não há espaço para falar sobre eles, o sofrimento aumenta. O envelhecimento vai sendo vivido como uma sequência de perdas silenciosas, que não encontram palavra, nem acolhimento.

Li uma vez, não lembro exatamente onde, que a forma como alguém envelhece tem tudo a ver com sua história emocional. E isso faz muito sentido. A velhice parece escancarar aquilo que foi sendo construído ao longo da vida. Quando faltaram vínculos, quando o amor foi escasso, quando o outro foi mais função do que presença, a velhice tende a se tornar mais dura. O egoísmo aumenta, o desamor aparece, e junto vem a infelicidade.

Muito do sofrimento no envelhecimento tem a ver com perda de sentido. Quando a identidade foi construída apenas a partir do fazer, do desempenho ou da aprovação externa, o declínio natural disso tudo deixa um vazio difícil de sustentar. E esse vazio, muitas vezes, vira tristeza profunda, depressão, adoecimento.

Talvez uma das coisas mais importantes para se manter ligado à vida seja aprender novos jeitos de estar no mundo. Dar novos sentidos ao tempo, a essa nova fase da vida. Aprender novas formas de se relacionar e de se colocar no mundo.

Talvez aprender que, nessa fase, a pressão de “ser alguém” é menor e que isso pode ser um convite real ao desapego. Um convite a se permitir ser dentro das novas possibilidades.

Isso também envolve aprender a respeitar e aceitar os limites do próprio corpo. O tempo passa. A vida muda de forma. E resistir a isso o tempo todo cansa. Adoece.


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Graziela Dalpian 💙- Psicanalista 

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