Você Não Se Torna Psicanalista em 6 Meses
Por que a banalização da psicanálise pode destruir uma profissão centenária e o que Freud diria sobre isso...
Tenho visto muitas formações de psicanalista por aí, mas o que de fato te torna psicanalista?
O fato de a formação psicanalítica ser livre infelizmente abre brecha para muitos cursos que, na verdade, não são psicanálise. Talvez sejam, em alguns casos, apenas estudos teóricos, mas isso não torna ninguém psicanalista.
O tripé da formação psicanalítica
O psicanalista se forma no divã, atravessando suas próprias sombras em análise. Porém, não é só isso. Não sou eu quem diz, mas o próprio criador da psicanálise, Sigmund Freud: a formação do psicanalista se faz a partir de um tripé:
1. Análise pessoal
Esta é a base fundamental. O futuro analista precisa experimentar em si mesmo o processo analítico, deitar-se no divã, confrontar seu próprio inconsciente, suas resistências, suas defesas.
Não se trata apenas de “resolver problemas pessoais”. Trata-se de compreender, na própria carne, como o inconsciente opera, como a transferência se manifesta, como a resistência se apresenta.
Freud dizia que ninguém pode ir além do ponto que sua própria análise permitiu. Se você não atravessou suas próprias questões, como vai sustentar o espaço para que o outro atravesse as dele?
A análise pessoal é o que diferencia um psicanalista de alguém que apenas estudou teoria.
2. Supervisão
A supervisão é o espaço onde o analista em formação apresenta seus casos clínicos a um analista mais experiente. É aqui que se aprende a escutar o inconsciente do outro, a manejar a transferência, a identificar contratransferências, a construir intervenções.
Não basta atender. É preciso refletir sobre o que acontece na clínica, sobre os impasses, sobre aquilo que nos escapa. A supervisão é o lugar onde o analista aprende a “operar” com a psicanálise, onde a teoria ganha corpo na prática. É um processo de refinamento constante da escuta e do posicionamento clínico.
3. Teoria
O estudo teórico rigoroso é essencial. Isso significa mergulhar nas obras de Freud, Lacan, Klein, Winnicott, Bion e tantos outros autores fundamentais. Significa estudar os conceitos fundamentais: inconsciente, transferência, pulsão, recalque, repetição, fantasia, desejo.
Mas atenção: não se trata de decorar conceitos ou aplicá-los mecanicamente. A teoria psicanalítica precisa ser metabolizada, questionada, articulada com a prática. É um estudo que nunca termina, porque sempre há algo novo a compreender, sempre há uma camada mais profunda a ser alcançada.
Por que esse processo dura de 3, 4 anos ou até mais?
Porque essas três dimensões precisam acontecer simultaneamente e de forma integrada. Não dá para fazer um curso teórico em 6 meses e se considerar formado. A análise pessoal leva anos. A supervisão precisa acompanhar a prática clínica. A teoria precisa ser estudada com profundidade e tempo para maturação.
Cuidado ao cair em promessas fáceis: ninguém se torna psicanalista em 6 meses. Você pode estudar, sim, mas não se tornar um. E mesmo estudando, a quantidade de conteúdo que envolve o conhecimento psicanalítico é imensa.
O que Freud dizia sobre a psicanálise
Freud foi enfático ao dizer que a psicanálise não é uma profissão para qualquer um. Ele alertava que o analista precisa, antes de tudo, ter se submetido à sua própria análise, não apenas para conhecer a teoria, mas para ter experimentado em si mesmo o processo analítico.
Para Freud, a psicanálise exige uma disposição especial: a capacidade de suportar a angústia, de lidar com o inconsciente (o seu e o do outro), e de manter uma postura ética rigorosa. Ele também destacava que a formação do analista nunca termina, é um processo contínuo de estudo, supervisão e análise.
A psicanálise, nas palavras de Freud, não é um método que se aprende mecanicamente. É uma práxis que se constrói na experiência, no encontro com o inconsciente, e no compromisso permanente com a verdade do sujeito.
Um compromisso para a vida toda
Um fato que deve ser levado em conta na hora de decidir seguir por esse caminho: o psicanalista precisa entender que o estudo e a análise irão acompanhá-lo ao longo de sua trajetória. É algo contínuo. Você realmente está disposto a isso?
Freud, em “Análise Terminável e Interminável” (1937), foi claro ao afirmar que a análise do analista nunca está completamente concluída. Ele recomendava que o analista retornasse à análise periodicamente, justamente porque novos conteúdos inconscientes emergem à medida que vivemos e atendemos.
Lacan, por sua vez, falava da formação do analista como algo que se dá no final de uma análise, e não no início. É através da travessia da própria fantasia, do confronto com o real do inconsciente, que alguém se autoriza a ocupar o lugar de analista. Não é um diploma que confere essa autorização, mas sim a experiência de ter atravessado sua própria análise.
O desejo de ser analista
E vou ainda mais longe: o que de fato faz você querer ser psicanalista?
Essa não é uma pergunta retórica. O desejo de ser analista precisa ser analisado. Muitas vezes, o que move alguém em direção à psicanálise são identificações imaginárias, fantasias de poder, ou até mesmo o desejo de “curar” os outros como forma de evitar olhar para as próprias feridas.
Ser psicanalista, inclusive, é um dos pontos que trabalhamos em análise. É preciso investigar: de onde vem esse desejo? O que está em jogo nessa escolha? Porque ocupar o lugar de analista não é ocupar o lugar de quem sabe, mas sim de quem suporta não saber e sustenta um espaço para que o outro encontre suas próprias verdades.
Por isso a pergunta crucial: você, que quer seguir por esse caminho, já realizou análise em algum momento?
Se a resposta é não, é importante questionar: como você pretende conduzir alguém por um caminho que você mesmo nunca percorreu?
A análise pessoal não é apenas uma exigência formal. É a condição fundamental para que alguém possa, de fato, operar como analista.
Psicanálise é psicanálise
Outro ponto que preciso chamar atenção: psicanálise é psicanálise. Muitos usam e misturam outros termos apenas para fazer você acreditar que pode ser psicanalista a partir de uma base fraca.
Aqui não estou dizendo que você não pode ser terapeuta — pode, sim! Existem várias linhas e várias abordagens. Porém, independentemente da abordagem, precisamos levar o que praticamos a sério.
Quis abordar especificamente a psicanálise porque vejo o quanto tem aumentado a demanda em cima de “formações” que, na verdade, não são formações, sem levar em conta o que realmente a psicanálise é.
O risco da banalização
A história nos mostra exemplos de profissões valiosas que perderam credibilidade devido à banalização. O coaching é um caso emblemático: quando exercido com seriedade, formação adequada e ética, é uma ferramenta poderosa de desenvolvimento. Porém, a proliferação de cursos rápidos e sem critério fez a profissão cair em descrédito.
Outro exemplo são os cursos de terapias holísticas, que possuem técnicas milenares sérias e eficazes, mas que foram desacreditadas pela oferta indiscriminada de certificações instantâneas.
O mesmo risco paira sobre a psicanálise. Esse crescimento desinformado e mal estruturado pode prejudicar profundamente uma profissão centenária, construída sobre bases sólidas de teoria, prática clínica e rigor ético.
Meu alerta
Antes de realizar uma formação:
- Busque informações sobre instituições ou psicanalistas sérios
- Inicie o seu processo de análise
Por isso estou escrevendo este texto. Sei que não vai chegar a muitas pessoas, mas, se ao menos chegar a alguém e isso fizer diferença, já fico feliz.
Se você decidir seguir com a psicanálise, que realmente você seja psicanalista.
E, se você apenas quer estudar psicanálise porque gosta do tema, que possa estudar com as fontes certas — para realmente entender sobre psicanálise, e não sobre a pseudopsicanálise que vem sendo vendida por aí.
Graziela Dalpian | Psicanalista





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