Entre o aconchego e o medo: quem decide o que é estranho?

 



À primeira vista, a cena parece simples: um gato na janela observa uma aranha. O gato nos transmite familiaridade, aconchego, algo que reconhecemos como parte do cotidiano. Ele representa o que chamamos de “normal”, aquilo que foi integrado à nossa experiência afetiva. A aranha, por outro lado, desperta estranheza, repulsa e, muitas vezes, medo.

Mas o que, de fato, torna um e outro tão diferentes aos nossos olhos?

Do ponto de vista psicanalítico, o estranhamento não nasce necessariamente do objeto em si, mas da forma como ele foi simbolizado em nossa história. O gato foi apresentado a nós como companhia, afeto, presença doméstica. A aranha, ao contrário, costuma ser ensinada como ameaça, perigo, algo a ser evitado. Assim, projetamos nela conteúdos inconscientes ligados ao medo, ao desconhecido e ao que não foi acolhido.

Freud nos lembra que o “estranho” não é apenas o que é novo, mas aquilo que, sendo familiar em algum nível, foi reprimido ou excluído. A aranha nos inquieta porque nos confronta com o que não aprendemos a amar, compreender ou integrar. O gato tranquiliza porque confirma aquilo que já foi aceito como parte do nosso mundo interno.

Talvez, então, a pergunta não seja sobre o que é normal ou estranho, mas sobre como aprendemos a olhar. O que muda não é o animal diante da janela, mas o sentido que damos a ele e, muitas vezes, esse sentido diz mais sobre nossa própria história psíquica do que sobre a cena em si.



O que chamamos de estranho pode ser, na verdade, um convite à escuta. Quando olhamos com mais atenção, o medo perde a urgência e dá lugar à compreensão.

Se esse texto tocou algo em você, talvez seja o momento de cuidar do que pede sentido. A escuta psicanalítica oferece um espaço ético, profundo e sem julgamentos para esse encontro consigo.




Graziela Dalpian | Psicanalista 

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